Os desafios da curadoria digital


A cada minuto a internet recebe mais de 200 milhões de emails, 2 milhões de pesquisas pelo Google, 680 mil ou mais posts no Facebook, 100 mil tweets, 48 horas de novos vídeos no YouTube e pelo menos 570 sites saídos do forno, entre diversos outros formatos e pacotes de informações. Estes são os números apontados pela companhia de inteligência corporativa Domo (2012), em estimativa realizada entre 2010 e 2011. Enquanto podemos apenas arranhar a superfície dos exa-bites (bilhões de gigabites), um fato é notável: encontrar a informação adequada nesse universo de conteúdo torna-se uma atividade cada vez mais complexa.

Se por um lado as perspectivas de facilidade de acesso e democratização proporcionadas pela franca expansão das tecnologias digitais trazem benefícios incontáveis, por outro lado introduzem o extraordinário desafio de lidar com o volume de criações humanas lançadas em rede. Do ponto de vista de quem procura podem ser listadas as necessidades de encontrar fontes e documentos confiáveis, acessar, validar, tratar e reencaminhar dados. Já quem produz precisa pensar em abordagens, formatos, canais, preservação, visibilidade e direitos sobre a produção. A distância entre estes dois extremos pode ser grande a ponto de inviabilizar um encontro que seria desejável.

É nesse cenário que surge o conceito de curadoria digital, em paralelo com os análogos curadoria de dados e curadoria de conteúdo (SANTOS, 2014, p. 104). Para compreendê-los mais claramente propomos um retorno ao sentido original de curadoria, ainda não no âmbito tecnológico, mas em seu domínio original, das artes e da atuação dos museus. Ao discorrer sobre o desenvolvimento teórico da museologia, Marília Xavier Cury (2009, p. 27) traz uma interessante citação de Zbynek Z. Stránsky, afirmando que o objeto de seus estudos tratava de

[...] uma abordagem específica do homem frente à realidade, cuja expressão é o fato de que ele seleciona alguns objetos originais da realidade, insere-os numa nova realidade para que sejam preservados, a despeito do caráter mutável inerente a todo objeto e da sua inevitável decadência, e faz uso deles de uma maneira, de acordo com suas próprias necessidades.

As múltiplas relações entre os vários elementos dessa equação, o ser humano, a realidade e os objetos entre eles, contituíam assim o campo de trabalho e pesquisa dos museus. Generalizando essa noção ao conjunto de todos os produtos da cultura humana, de distintas épocas e locais e não limitados pelas contingências das coleções localizadas, a ideia de museu imaginário de André Malraux (AZZI, 2011) alçou as obras a uma instância onde poderiam ser acessadas não apenas pela apreciação de seu exemplar original, mas também a partir de reproduções, de modelos ou até da memória, fazendo uso de qualquer meio que estivesse à disposição de um determinado apreciador.

Todas essas concepções anteciparam em décadas a experiência e também as demandas de navegar na internet nos dias atuais. O problema de como arquivar e disponibilizar os mais diferentes materiais para os mais diferentes públicos, em um fluxo de informações que deve se manter contínuo, acabou por aproximar as considerações envolvidas na museologia das mais atuais pesquisas em ciências e tecnologia da informação. Se a rede pode ser comparada a um enorme museu virtual, o que dizer do trabalho de quem se propõe a atuar nesse domínio?

Thayse Santos (2014, p. 25) afirma que "Uma das considerações contemporâneas desse espaço de intervenção social coletivo [a internet] concerne à organização desse caos invisível cujo crescimento é exponencial.". E mais à frente, "A curadoria digital envolve a manutenção, preservação e agregação de valor aos dados de pesquisa digital em todo o seu ciclo de vida." (SANTOS, 2014, p. 34). Atravessando todas essas etapas e contextos, o papel fundamental que emerge da curadoria é o da mediação. Ainda segundo a mesma autora, o termo curadoria digital se volta mais especificamente para operações de larga escala relativas a criação e manutenção de infraestrutura, como as de bibliotecas e grandes acervos, com a preocupação de preservação a longo prazo. Estas atividades se aproximam, num momento mais atual, das necessidades de professores e alunos no contexto da educação à distância. Vê-se assim a grande relevância dessa área para a consolidação de novas práticas possibilitadas pelas tecnologias de informação.

Mais dirigida ao grande público, a curadoria de conteúdo envolve os passos de pesquisa (ou seleção), contextualização e compartilhamento, que consciente ou inconscientemente os próprios usuários realizam ao fazer postagens em blogs ou redes sociais. O jornalismo e o marketing seguem pelo mesmo caminho, porém com uma necessária consideração de públicos, objetivos e intenções, seja em relação a editoriais ou a ações particulares. As próprias consultas em ferramentas de pesquisa ou feeds de notícias podem ser questionadas com base na falta de transparência em relação aos critérios utilizados por estes sistemas. Em resumo, atingir o seu público ou encontrar o que se procura, assim como trazer a navegação para mais perto dos propósitos de cada interessado, são todos aspectos que afetam desde a busca mais casual até os usos mais produtivos que se podem fazer da rede. E que carecem incessantemente de soluções.

 


 

Referências

 

AZZI, Christine Ferreira. Museus reais e imaginários: a metamorfose da arte na obra de André Malraux. Lettres Françaises, v. 2, n. 12, 2011.

 

DOMO. Data Never Sleeps: How Much Data Is Generated Every Minute? apud TEPPER, Allegra. How Much Data Is Created Every Minute? [INFOGRAPHIC]. Mashable, jun. 2012. Disponível em: <http://mashable.com/2012/06/22/data-created-every-minute/#S3D_69pUGmqQ>. Acesso em: 8 jan. 2016.

 

SANTOS, Thayse Natália Cantanhede. Curadoria digital: o conceito no período de 2000 a 2013. 2014. 165 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, Brasília, 2014.

 

STRÁNSKÝ, Zbynek Zbyslav. Documents de travail en museologie (DOTRAM). MUWOP: Museological Working Papers: Museology: Science or just practical museum work 1. p. 42-44, 1980 apud CURY, Marília Xavier. Museologia, novas tendências. In: GRANATO, M.; SANTOS, CP; LOUREIRO, MLNM. (Org.). Museu e museologia: interfaces e perspectivas. Rio de Janeiro: MAST, 2009. p. 25-41.


Thiago B. Nóbrega é produtor audiovisual, especialista em Comunicação e Semiótica e trabalha atualmente com EaD.

 

lattes