Anotações de Estudo: As provocações de Otto Peters


Anotações de Estudo: As provocações de Otto Peters

por Ana Paula Rodrigues

Para educadores e pesquisadores envolvidos com Educação a Distância (EaD), o livro “Didática do ensino a distância: experiências e estágio da discussão numa visão internacional”, de Otto Peters, impõe-se como leitura obrigatória. O livro em questão não é atual: foi lançado em 1997 e publicado no Brasil em 2001, mas a atualidade dos aspectos discutidos é que o torna tão especial. Peters foi fundador e primeiro reitor da FernUniversität, a Universidade a Distância da Alemanha, criada em 1974, e é internacionalmente reconhecido por sua atuação na área. Além de trazer uma ampla bibliografia, relatos de experiências e exemplos de diversas universidades ao redor do mundo, o livro incita discussões provocativas sobre a Educação a Distância, do ponto de vista da didática, que ainda hoje permanecem. Neste texto, optamos por destacar três discussões levantadas pelo autor: o “dilema didático” da EaD, a questão da autonomia do aluno e a questão do aluno adulto.

O “dilema didático” da EaD faz referência a duas características eminentes da modalidade: sua acessibilidade (acessibility) e sua eficácia (quality). Para Peters (2001, p. 34), “vale a regra básica: quanto maior a acessibilidade, tanto mais pobre qualitativamente o estudo”. Isto é, cursos realizados em larga escala, para um vasto número de alunos, tornam mais escassas as possibilidades de interação entre professores e alunos, reduzindo as oportunidades de diálogo, considerado como elemento fundamental para a qualidade dos processos de aprendizagem. Para as universidades, resta o desafio de encontrar um equilíbrio entre as prioridades econômicas e pedagógicas, buscando um meio termo entre esses dois polos.

A segunda questão escolhida faz referência à autonomia do aluno de EaD. Embora o autor reconheça que a modalidade demande maior responsabilidade do aluno, que precisa tomar decisões frequentes sobre seus estudos (onde, quando, em que ritmo estudar), essa aparente autonomia é extremamente limitada pelas normas institucionais impostas a eles. Segundo Peters (2001, p. 156), o estudo do aluno de EaD “é muito mais predeterminado, estruturado, amarrado a fatores preestabelecidos e mais regulamentado do que o estudo com presença, e, portanto, em alto grau heteronômico". Essa heteronomia, de modo geral, está presente inclusive nas decisões relativas ao cronograma e ao currículo, que são predeterminados pela instituição, prática que se revela bastante inadequada à luz da didática da educação de adultos. Tais constatações levam o autor a se perguntar se seria possível alcançar o estudo autônomo com os modelos de Educação a Distância ora vigentes.

Por fim, a última questão destacada (em meio a uma série de ótimas outras reflexões!) refere-se à necessidade de se ter uma atenção especial ao público da EaD que, em geral, se compõe de "adultos um pouco mais velhos" (PETERS, 2001, p. 37). Várias especificidades derivam daí, pois são alunos que têm mais experiência de vida, experiência profissional, disponibilidade de estudo em tempo parcial, podem ser mais qualificados e, para eles, o estudo se insere de forma diferente em seus planos de vida. Deve-se oferecer a esse estudante o mesmo ensino que é oferecido no ensino com presença? Para Peters, a resposta é obviamente não. No entanto, o autor ressalta que a exigência de adequação dos estudos às necessidades específicas de adultos profissionalmente ativos é sistematicamente rejeitada pela maior parte dos professores universitários. Estes têm dificuldades em abandonar práticas expositivas, consideradas por eles mais adequadas para o ensino científico, em favorecimento às práticas mais participativas e dialogadas, base da educação de adultos.

As questões apresentadas aqui são uma pequena amostra das brilhantes discussões presentes nesta obra, e por tudo isso a leitura vale muito a pena!

 

Referências:

PETERS, O. Didática do ensino a distância: experiências e estágio da discussão numa visão internacional. Tradução de Ilson Kayser. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2001.


Ana Paula Rodrigues é pedagoga e mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Atua na Secretaria Geral de Educação a Distância da UFSCar, com foco em práticas pedagógicas inovadoras apoiadas em Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação. Participa do Grupo Horizonte - Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Inovação em Educação, Tecnologias e Linguagens.